O que faz de O morro dos ventos uivantes um clássico da literatura cult


Brönte    emily    
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Escrito por: Sophie Alexandra Frazer
Traduzido por: Liliana Hage

No lançamento de O morro dos ventos uivantes, primeiro e único romance de Emily Brontë, publicado em 1847, nada sugeria que a obra viria a atingir a importância e o status de cult que tem hoje. Embora os críticos da época admitissem seu valor com certa má vontade, mesmo diante da clareza de seu realismo psicológico, a recepção geral foi de descontentamento com o rude e amargurado herói byroniano Heathcliff e sua amada Catherine, cuja rebeldia às normas de feminilidade vitoriana anulavam qualquer sinal de apelo sedutor.

As personagens usam um linguajar pesado e palavras ferinas, sempre com um escárnio prazeroso diante de cada vingança, como se disputassem um incansável jogo de xadrez no inferno. Um de seus primeiros críticos escreveu que o romance revela a influência brutal de uma paixão mal resolvida.

A filósofa Martha Nussbaum, por sua vez, afirma que o leitor precisa enfrentar a revolta contida em O morro dos ventos uivantes para ser capaz de entender o que pretendia Emily Brontë. É preciso se render ao horror do mundo às avessas da autora.

É como um salto no escuro, sem que se olhe para saber se há água embaixo. É um Paraíso Perdido em forma de romance, com sua poesia miltoniana, seu estilo hiperbólico, sua crueldade interminável. A obra deixa leitores e estudiosos perdidos à procura de um significado aparentemente délfico, enquanto tentam encontrar o sentido do mundo hobbesiano por ela retratado.

A autora permanece tão ambígua quanto sua enigmática obra. À medida em que novas críticas surgiram, principalmente no ano em que se comemorou o bicentenário de seu nascimento, os poucos rastros que se tem de sua vida pessoal foram melhor reconstruídos.

Descrita como a “esfinge da charneca”, o mistério acerca de Emily Brontë atrai incontáveis  peregrinos à casa em Haworth, Inglaterra, onde a autora passou a maior parte de sua vida, e aos arredores alagadiços conhecidos como “Moorlands”, cenário de suas caminhadas diárias e fonte de inspiração para sua escrita. Brontë abriu mão do ciúme que nutria por seus escritos somente depois de muita insistência por parte de sua irmã Charlotte para que a obra fosse publicada.

O morro dos ventos uivantes foi inicialmente publicado sob o pseudônimo de Ellis Bell, em uma edição que incluía também a obra menos conhecida de sua irmã Anne, Agnes Grey. Emily morreria apenas doze meses depois, em dezembro de 1848.

Como observa a biógrafa Juliet Barker, Brontë teimava em fingir boa saúde mesmo no estágio final de sua doença, e insistia em levantar-se da cama para cuidar do adorado cão Keeper. Resistiu à morte com admirável autodisciplina, mas seu firme espírito enfim se partiu, conforme ela própria admitiu, durante uma consulta médica. Já era tarde demais; e ela tinha apenas 30 anos.

Depois da morte da irmã, Charlotte Brontë escreveu dois prefácios biográficos para acompanhar uma nova edição de O morro dos ventos uivantes, exemplificando a mitologia tanto de sua irmã — “mais forte que um homem, mais simples que uma criança” —, quanto de sua escandalosa obra. “É rústica do início ao fim, pantanosa, selvagem e emaranhada, como uma terra inculta”, escreveu.

Ícone feminista

É essa caraterística de rebeldia que atrai artistas, desde Sylvia Plath até Kate Bush, cuja canção Wuthering Heights, single de sucesso de 1978, ressalta o apelo magnético da impetuosa heroína, Catherine. O romance manteve sua importância na cultura pop ao longo dos tempos, e sua autora alcançou status de ícone feminista.

A ambiguidade da mulher e do livro que hoje parece uma extensão de sua própria subjetividade confere a ambos maleabilidade suficiente para transformá-los nas mais diversas mídias, como filmes de Hollywood, peças de teatro, balé e, ainda, romance de suspense. O nome de Brontë é usado para vender de tudo, desde alimentos até produtos de limpeza.

As versões cinematográficas tendem a ser abundantes em romantismo, exibindo amantes sofrendo no pico das colinas açoitadas pelo vento, como na famosa cena do filme de 1939, com Laurence Olivier no papel de um impetuoso Heathcliff, uma imagem já clássica que os cartazes de lançamento vendiam como “a maior história de amor do nosso tempo — ou de todos os tempos”. A versão reduzida de Andrea Arnold, de 2011, é uma exceção; árida, sombria e violenta. Os atores falam quase que em um dialeto ininteligível, lutando em um cenário selvagem como se fossem animais.

Contrariando a avaliação de Charlotte Brontë, no entanto, O morro dos ventos uivantes não foi puramente o produto de uma terrível inspiração divina oriunda das rochas de granito da paisagem de Yorkshire, e traduzido como simples palavras na obra de Emily.

Em vez disso, é o trabalho de uma escritora revisitar as formas passadas do Romantismo, especialmente a encarnação alemã daquela estética, em uma infusão de tabus folclóricos e nostalgias primais. Sua narrativa do gótico doméstico abriga-se em uma arquitetura de complexidade intrincada, que funciona mediante repetição e duplicação, no sustentáculo em que se apoia Catherine, objeto supremo e desafiador da obsessão de Heathcliff.

A questão central do romance é a propriedade corrosiva do amor, com o poder titânico de uma tragédia shakespeariana na forma dialógica de uma peça moral grega. Duas famílias, presas a uma guerra mortífera para ambos os lados, e ligadas por herança patrilinear, encenam seu odioso conflito no pequeno espaço geográfico que separa seus respectivos lares: de um lado, o luxo e a monotonia da Granja, e, de outro, a nobreza maltrapilha, a decadência e a violência da Colina.

Uma obra claustrofóbica

É um romance claramente claustrofóbico. Embora seja lido com um vago sentido da amplidão da charneca que é o seu cenário, a ação se desenrola, com raras exceções, no interior das casas. Mesmo depois de várias leituras, sou incapaz de descrever uma imagem clara da Granja. Já o desenho da Colina, com seus labirínticos e aprisionadores aposentos, ficou gravado na minha memória. Quanto mais o leitor se aprofunda no espaço da Colina — espaço do texto —, mais confuso é o efeito da leitura.

O amor entre Heathcliff e Catherine hoje existe como um mito eficaz, externo a qualquer relação substancial com o romance de onde se originam os amantes. É a simplificação de uma paixão condenada. Muito de seu exagero se expressa na declaração de amor platônico de Catherine: “Eu sou Heathcliff, ele está sempre na minha mente”. No entanto, o relacionamento entre eles é nada menos que brutal.

O que há nessa tão sublime união com traços de necrofilia e desejo incestuoso, que tanto cativa o leitor? E por que Emily Brontë privilegia essa forma explícita de amor masoquista, irrevogável e inatingível?

O principal tema de Brontë era a sublimidade, e sugiro que é a afinidade metafísica o que une esses dois amantes que tanto nos encantam. A cobiça de seus sentimentos mútuos não reflete a realidade, é extremamente real, uma vez que a maior aspiração de Catherine e Heathcliff não é tanto a de ficar juntos, mas, sim, a de estarem um na pele do outro. Embaralhados naquele compromisso compartilhado com o mundo natural que foi palco de suas brincadeiras na infância, eles tentam desesperadamente chegar à alma um do outro.

Eles não formam um casal erótico do ponto de vista físico; o corpo é imaterial ao seu amor. É um tipo de desejo bem diferente daquele que une Jane Eyre e Rochester, por exemplo, na obra de Charlotte Brontë; este, sim, bastante carnal. Tanto Catherine, quanto Heathcliff, querem entrar na pele, um do outro, de forma bem literal, para formar e transformar-se naquele corpo singular de suas fantasias de infância. É, portanto, um sonho de total união de uma impossível volta às origens. Não é sublime em sua transcendência, mas terreno. “Não consigo descrever”, desabafa Catherine à criada Nelly Dean, nossa modesta narradora, ainda que não tão boazinha assim.

Mas certamente você e todos os outros têm noção de que há, ou deveria haver, uma existência além da sua própria. De que serviria a minha existência se restrita a mim mesma? Meus maiores tormentos nesse mundo são os tormentos de Heathcliff… meus maiores pensamentos são os dele. Se eu morresse e ele vivesse, eu continuaria existindo.

Tal noção de autoeclipse da forma  é aparentemente impossível de se imaginar nos dias de hoje, quando o conceito de individualidade é algo tão sagrado. Esse é, no entanto, a essência da tragédia de Catherine: sua busca pelo próprio lar entre os homens que a cercam é fútil. A determinação de Emily Brontë em descrever uma ontologia compartilhada fundamenta o erotismo existente entre o casal de uma forma que não pode ser ignorada. As demais personagens também não parecem conseguir.

A estrutura da obra é reconhecidamente complexa, com múltiplos narradores e um estilo fluido que resulta em uma voz centralizadora de atenção, ofuscando a outra. A história propriamente tem início com Lockwood, um estranho ao cenário rústico, um cavalheiro acostumado à vida urbana e sua população civilizada.

O terrível pesadelo que ele enfrenta na primeira noite sob o teto de Heathcliff, e o resultado violento de seu temor trazem à tona a história de amor que provoca tanto fascínio. A invocação três vezes repetida por Heathcliff do nome de Catherine, que Lockwood encontra escrito às margens de um livro — e engana-se ao pensar se tratar de “apenas um nome”, funciona como um encantamento, acordando o fantasma da mulher que assombra esse livro.

Emily Brontë fala de sonhos — sonhos que atravessam a mente como o vinho atravessa a água e muda a cor dos pensamentos. A experiência de ler O morro dos ventos uivantes se parece com o acordar de um pesadelo, mas que visão tão maravilhosa, colorida e fantástica é essa.

Sophie Alexandra Frazer


Sophie Alexandra Frazer é candidata ao doutorado em inglês, University of Sydney.

Link do artigo original.



Liliana Hage


Tradutora.



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